Por que devemos diminuir o consumo de gordura trans?
Com o aumento do consumo de alimentos industrializados ocorrido nas últimas décadas, em função do trabalho da mulher e do ritmo de vida das metrópoles, que impede que as refeições sejam feitas em casa, o consumo de gordura do tipo trans aumentou em todo mundo, ocasionando a possibilidade de danos importantes à saúde, pelas características desse tipo de gordura.
Na natureza pode-se encontrar gordura trans (assim chamada em função de sua estrutura química diferente das demais) em alimentos de origem animal como carnes e leite, porém, nesses alimentos, sua quantidade é quase desprezível.
A indústria desenvolveu, e utiliza em larga escala, o processo de hidrogenação de óleos vegetais que produz a gordura trans e que faz parte da maioria dos alimentos que são diariamente consumidos como doces, bolos, biscoitos, tortas, sorvetes, batatas fritas, salgadinhos, margarinas, coberturas e base de sopas. Seu uso barateia o custo, melhora o sabor e a consistência dos alimentos, além de prolongar o prazo de validade de alguns alimentos nas prateleiras.
É importante assinalar que são as gorduras que conferem aroma e sabor aos alimentos, de modo que é fácil entender que o seu uso, mesmo que exagerado, faz com que, à vista do leigo (e do guloso...) o alimento industrializado seja considerado de boa qualidade, porque o paladar se gratifica com o seu consumo.
No entanto, de algum tempo para cá, estudos internacionais tem evidenciado que a gordura trans pode elevar a concentração plasmática do colesterol LDL (colesterol ruim) e diminuir a do colesterol HDL (colesterol bom). Nesse sentido a conseqüência de seu uso exagerado é tão prejudicial quanto o uso de gorduras saturadas, aquelas gorduras sólidas que estão presentes nos alimentos de origem animal e que a população mais informada já aprendeu a evitar como o excesso de manteiga, a pele do frango ou a gordura em volta da picanha. Para piorar ainda mais o quadro deve-se assinalar que a gordura trans aumenta o número de partículas de colesterol de menor tamanho, o LDL-c, que por sua facilidade em se fixar na camada interna dos vasos, aumenta o risco de desenvolver o processo aterosclerótico, início de todas as complicações futuras que podem levar ao infarto do coração, derrames e demais problemas dessas que são chamadas doenças degenerativas.
Assim, mundialmente, a Academia Americana de Cardiologia (AHA), a Academia Americana de Nutricionista (ADA), a Sociedade Brasileira de Cardiologia, a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Sociedade Brasileira de Nutrição, recomendam que o consumo diário de gordura trans seja limitado a, no máximo, 1% das calorias totais provenientes de todas as gorduras ingeridas.
No Brasil, a ANVISA obriga que a quantidade de gordura trans nos alimentos industrializados esteja descrita no rótulo, em gramas. Quantidades menores que 1% não necessitam ser relatadas nos rótulos. Segundo resolução da ANVISA RDC nº 360, de 23 de dezembro de 2003 (D.O.U de 26/12/2003), valores de gordura trans abaixo de 0,2 g não precisam ser descritos. A partir de 2008, não se exige mais que os fabricantes grafem gordura vegetal hidrogenada por extenso nas embalagens, permitindo que ela seja indicada apenas como gordura vegetal.
A importância do controle da ingestão da gordura trans fica evidente com um simples raciocínio, que mostra o quanto um indivíduo que consome vários alimentos que contenham gordura trans, mesmo em pequenas quantidades por alimento, pode ultrapassar a quantidade recomendada diária, aumentando seu risco de doenças cardiovasculares. Por exemplo, uma criança com quatro anos tem necessidade energética total de 1800Kcal por dia, das quais 30% devem ser obtidas por meio de gordura (540Kcal). Se considerarmos 1% desse total como gordura trans chegaremos a 5,4 Kcal, o que corresponde a 0,6g de gordura trans por dia. Para um adulto, que necessita de 3000 Kcal por dia, dos quais 30% serão provenientes de gordura, ou seja, 900 Kcal/dia, o 1% de gordura trans corresponde a 9 kcal/dia.Como 1 grama de gordura fornece 9 kcal o máximo que poderá ser ingerido em gordura trans corresponderá a 1 g/dia.Ora, segundo os rótulos, biscoitos recheados, em duas unidades ( 30g), possuem 1,5 g de gordura trans ou seja, duas vezes e meia o que deve ser ingerido por uma criança e uma vez e meia o que deve ser ingerido por uma adulto. É em função desse conhecimento que a conscientização mundial já é grande, quanto à necessidade de controle do consumo de gorduras, especialmente a trans, ainda mais nesse momento em que a Organização Mundial de Saúde define a obesidade como a maior epidemia do mundo, em termos de saúde pública. Por isso, indústrias alimentícias internacionais como Frito-Lays e a rede americana McDonalds iniciaram um movimento, há quase cinco anos, em alguns países desenvolvidos, onde a conscientização é maior, tentando-se adaptar às novas recomendações de hábitos alimentares saudáveis. Não por outro motivo os restaurantes de Nova York fizeram um pacto no sentido de abolir a gordura trans das refeições oferecidas a partir de julho de 2008.
Deste modo, os especialistas do mundo sugerem a restrição quase absoluta da gordura trans nos alimentos industrializados, mantendo o seu consumo apenas para os alimentos naturais como carne, leite e derivados.
Esperamos que a indústria de alimentos aqui estabelecida se conscientize do problema, se modernize acompanhando o mundo desenvolvido, se preocupe com a saúde do consumidor e não faça ameaças deselegantes, como a de trocar as gorduras utilizadas por banha de porco.
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