Podemos considerar a indústria alimentícia como parceira no combate da obesidade?
Em resposta ao aumento da prevalência da obesidade, muitas empresas do ramo de alimentos têm anunciado suas políticas para o combate do problema. Incentivo a prática esportiva, transmissão de informações para uma escolha inteligente, interferência na alimentação escolar, são pontos que fazem parte dos discursos de empresas como o Mc’Donalds, PepsiCo, Kraft foods, entre outras. Na vigência destas “promessas”, questiona-se então se as empresas alimentícias deveriam ser consideradas como parceiras na luta contra a obesidade.
Um levantamento realizado recentemente comparou as promessas de certas empresas com o que acontece na prática. O resultado foi de discrepâncias. Enquanto estas empresas lançam programas de estímulo para mudanças de hábitos, as mesmas continuam produzindo alimentos com gorduras e açúcares em excesso, sem esquecer ainda da vinculação do marketing apelativo a alimentos nada saudáveis.
Nos países com economia de mercado, as empresas de alimentos, como qualquer outra empresa, têm como foco principal o retorno financeiro aos seus acionistas. Para aumentar seus lucros, essas empresas têm então duas opções: convencer seus consumidores a comerem mais, contribuindo diretamente com a obesidade, ou aumentar a margem de lucros, através de campanhas de marketing e re-embalagem de produtos, o que leva a uma contribuição indireta. Assim, as estratégias destas grandes empresas baseiam-se em campanhas de “comam mais”, promovendo o aumento das porções de alimentos e tornando normal o consumo diário de doces, refrigerantes, snacks e fast food.
Quando compramos um medicamento, por exemplo, existem na bula informações a respeito dos potenciais efeitos adversos do uso crônico daquele produto. Com os alimentos deveria proceder da mesma maneira: avisos das consequencias do alto consumo de gorduras trans e açúcares.
É papel do governo regularizar e estabelecer padrões mais rigorosos para alimentação escolar, banir definitivamente a publicidade infantil e proibir alegações sem fundamentos nos rótulos de alimentos. Além disso, os órgãos públicos devem sempre ter como base evidências científicas para as políticas em nutrição e não basear-se em interesse, como acontece em muitas pesquisas financiadas pelas grandes empresas alimentícias.
E para terminar, devemos lembrar que a responsabilidade não é exclusivamente do governo. É também das universidades, ao formar profissionais que atuarão junto à sociedade, é da indústria, que deveria agir de forma mais coerente e especialmente dos consumidores: pois se em uma economia de mercado há liberdade de vender produtos com baixo valor nutricional agregado, existe também liberdade ao consumidor em simplesmente não comprá-los.
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