A nova Pediatria

Por Mauro Fisberg, pediatra e nutrólogo, CRM 28119

Coordenador do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares do Instituto PENSI- Fundação José Luiz Egydio Setúbal. Professor associado Sênior departamento de pediatria da Escola Paulista de Medicina- UNIFESP. Membro titular do departamento de Nutrologia da Sociedade Brasileira de Pediatria.



Crédito: Weekend Images

Tempos difíceis exigem mudanças drásticas. A pediatria brasileira precisa se incorporar a novas situações de risco que se acoplam a antigos problemas de saúde da criança. Temos de conviver com novas doenças afetando grupos de risco com problemas de base institucionalizados e arraigados, assim como um ambiente desafiador, pleno de vulnerabilidades e crescente insegurança.

Do ponto de vista nutricional, a criança brasileira segue em um panorama complexo, com riscos desde antes do nascimento- com inadequados pré-natal e peso gestacional fora do esperado. Ao nascimento, com altas e mantidas taxas de baixo peso ao nascimento e altos índices de prematuridade e partos de risco em adolescentes, verificamos ainda a ausência quase que total do pediatra na sala de parto em cidades menores.

Apesar das campanhas de incentivo ao aleitamento natural, mesmo com aumentos expressivos, seguimos com taxas inferiores ao esperado de aleitamento materno exclusivo por até seis meses e enormes taxas de desmame precoce, com introdução inadequada de alimentos complementares.

Todos estes fatores favorecem o aumento de risco nutricional, com altas taxas de desnutrição em diferentes bolsões de nossos centros, com sequela importantes aos sobreviventes, como a baixa estatura nutricional (stunting), a fome oculta, com carências de ingestão ou deficiências bioquímicas de vitaminas e minerais. Altas taxas de anemia carencial, deficiência clínica ou sub-clínica de vitamina A, D, ferro, zinco e fibras. Ao mesmo tempo temos excesso de ingestão de sal, açúcar e gorduras.

Quanto ao excesso de peso, ocorre cada vez mais precocemente, de forma mais intensa, prolongada e associada a perfil de maior risco a curto, médio e largo prazo. Os processos desencadeiam o assédio intra-domiciliar, com a chamada gordofobia, chegando até a falta de atenção ou de diagnóstico das mudanças pondero-estaturais da criança.

Hábitos inadequados de alimentação familiar e uma insuficiente exposição a atividade física espontânea ou planejada, ocasionam o que chamamos de ambiente obesogênico.

Persistimos com um número elevado de crianças que não são acompanhados em serviços de saude de rotina, com poucas consultas de puericultura e excesso de procura de serviços de emergência. Nas salas de atendimento pediátrico, sobram doenças e falta espaço para o acompanhamento seguro das condições de rotina de analise do crescimento, desenvolvimento, vacinação e prevenção de doenças possivelmente antecipáveis.

O pediatra, premido pelo tempo, dedica-se em seu curto tempo de atenção, aos problemas mais imediatos e a queixa de sintomas e sinais.

A pandemia do novo Coronavírus, escancarou mais uma vez a inadequada condição de preparo da sociedade a condições emergenciais, levando a maiores riscos na faixa etária pediátrica, afastando a criança das consultas de rotina ou mesmo do atendimento de doenças não ligadas ao Covid19. O fechamento das escolas, além da ruptura do equilíbrio de relações familiares, com a presença diuturna de crianças e familiares convivendo juntos, levou a diminuição do apoio da merenda escolar e ao aumento de insegurança alimentar por desemprego ou falta de recursos de todo o núcleo de apoio.

Uma vez estabelecido o cenário de risco, especialmente nos primeiros meses e anos do crescimento e desenvolvimento infantil, precisamos agir de forma modificada para